Às vezes, a partir de uma conversa despretensiosa, pode surgir uma peça pra um insight. Ou pra que caia uma ficha, trazendo pro consciente, aquilo que escondemos tão bem, que parecia impossível de revelar.
Considero difícil o exercicio de identificar narrativas nos outros, a ponto de poder desmontá-las, com fatos e argumentos concretos. Mas e quando criamos narrativas sobre nossas próprias histórias? Posso dizer, que pelo menos na minha vivência, o que fazia essas narrativas estarem tão bem protegidas eram valores pessoais como vigas de sustentação. E um dos meus valores é a valorização da memória, o que muito explica eu continuar escrevendo num blog, em pleno 2026. E por ter convivido com pessoas que, incessantemente mostraram valores que iam na contramão deste meu valor, eu ergui um grande muro, protegendo o que eu considerava de memória, lembranças e imaginário. Com muita terapia, desde 2018 e compartilhando angústias e desconfortos com amigos, pude ter opiniões e visões diferentes às que eu já tinha como certas.
Posso afirmar que um segundo valor, numa proporção maior, tenha contribuído pra esta ficha cair : a busca por reconhecimento. E não tenho isso em relação a carreira ou família. Mas em meus relacionamentos, é algo bem notório, que se vê logo de cara. E esses dois valores, serviram como apito de cachorro pra alguns vampiros emocionais, na minha vida. Pessoas que tentaram sugar tudo o que podiam, de validação, de afeto e tudo mais e em troca só deram incertezas, dúvidas, ausências.
É difícil não ser binário e raso nessas horas. O instinto de competição, talvez. Mas ao invés de me afastar dessas pessoas, eu sempre queria mostrar que era melhor que elas, Que apesar de me fazerem mal, de tentarem me manipular, eu não daria o troco na mesma moeda. E nisso, vieram anos de desgaste, maquiando algumas poucas memórias, imperfeitas. E mais desgaste, aguardando um reconhecimento que nunca viria. Parece óbvio que não dá pra plantar batatas e esperar colher morangos. Da mesma forma, não dá pra esperar de certas pessoas um reconhecimento ou algo meramente razoável, que elas não oferecem nem mesmo pra si.
E nesses dias, a ficha caiu, como uma folha seca. Eu não via mais sentido em manter aquele esforço de manutenção daquelas memórias, que demandavam energia da minha parte e ativavam uma busca por reconhecimento. Consegui identificar os gatilhos e desativei essa máquina de sofrimento. Não preciso mais me esforçar pra me sentir superior ou muito mais ético, pra não me igualar ao nível dessas pessoas. Por qual motivo eu deveria oferecer o outro lado da cara a pessoas assimm? Não sou Jesus Cristo e muito menos acredito em altruísmo. Eu quis ajudar? Ao desativar a busca por reconhecimento, pude ver o quanto era balela esse desejo e que não se sustentaria, se fosse posto à prova. Depois que a ficha caiu, ficou bem claro o que deveria ser óbvio: que eu quero mais é que essas pessoas se fodam, de verdade. Ou no mínimo, me tornar indiferente. Mas torcer por esse tipo de gente? Em nenhum momento eu deveria ter acreditado nessa narrativa.
Essa síndrome de herói, eu consegui manter até por volta dos 30. Depois, me dei conta de que eu não teria energia a longo prazo, que não era algo sustentável e muito menos, recompensador. Acontece de muita gente que precisa de ajuda, não ter dignidade em pedir, por questão de orgulho. E muitas vezes, acabam manipulando o outro, que tem potencial de se sacrificar, pra fazer as coisas, por " livre e espontânea vontade ". E a qualquer sinal de cobrança, o surrado e cínico bordão de " não te pedi nada ".
Pra desmontar essas bombas, precisei estar muito vulnerável ao ridículo. Foi preciso reparar em cada sentimento, cada angústia, tendo auto crítica e analisando muito do " não dito ". É preciso ter coragem pra tirar certos cadáveres, escondidos debaixo da nossa cama. Eles fedem e não são bonitos de se ver. Mas nosso quarto terá outra energia, assim que limparmos tudo. Haverá um vazio, mas com paz. E estar em paz, é um luxo pra poucos e que hoje, não abro mão.


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