Eu já estava tomando um medicamento " mais leve ", desde julho de 2021, quando tive o que pareceu um burnout, seguido de Covid 19. Essa medicação que eu tomava era pra dar motivação, de levantar, de fazer as tarefas cotidianas, etc. Bom, serviu em partes, pra que eu não caísse num limbo completo, mantivesse meu emprego e meus estudos, mesmo que precariamente.
A última psiquiatra que me consultei me alertou que eu não estava tratando uma das causas principais deste meu " eu atual ", que seria a tristeza/melancolia cotidiana. E me receitou uma outra medicação, que atuaria mais neste ponto.
Bom, a consulta foi há três meses e só fui tomar a primeira pílula hoje. Sou meio pé atrás quanto a dependências ou reações. Mas cheguei num ponto de letargia tão acentuado, que resolvi seguir a prescrição da especialista.
Em 1 ano, além do burnout e da Covid 19, tive uma propensão a hipertensão confirmada e hoje tomo medicamentos pra controlar pressão. Ganhei peso, me isolei mais, o sedentarismo aumentou. Tive várias situações de stress e desapontamento com pessoas. Meus cabelos e barba ficaram grisalhos rapidamente. Senti que envelheci uns 5 anos em 1. A perda da minha mãe, em dezembro fez com que tudo virasse uma bola de neve. Cortei relacionamento com meu pai. Perdi o controle das minhas finanças pessoais e me endividei.
Claro que nem tudo foi ruim neste período : Continuei minha terapia, com um especialista que me entende melhor. Me mudei pra uma casa mais confortável e mais perto do metrô. Retomei contato com familiares que eu não falava há anos. Consegui formar uma biblioteca, como sempre sonhei. Concluí minha pós graduação. Me matriculei em um dos cursos de ensino superior dos meus sonhos ( Sociologia ). Meu relacionamento evoluiu bastante e completamos 4 anos juntos. Fizemos a união estável em abril e já fico mais tranquilo, por proporcionar alguns direitos a ele, como plano de saúde.
Gostaria de ter disciplina de escrever todo dia. Sei que me faria bem. Mas não consigo ser esse tipo de pessoa estável. Tenho procrastinado bastante. Espero que o medicamento faça um bom efeito.
Quando me dei conta de que não precisava, necessariamente, escolher entre ficar com homens ou mulheres, achei o máximo. Aquela velha e batida ilusão de fartura, de que teria muitas e muitas opções de relacionamento. A realidade é outra. O caos psicológico supera a sensação utópica de "orgias imaginárias" com homens e mulheres.
Minha última namorada foi um episódio à parte. Quem lia meus blogs antigos e tem boa memória, pode ser que lembre. Ela também tinha blog, aliás. Há dez anos atrás, eu tentei um relacionamento à distância, com uma garota de 21 anos, do interior de SP, chamada Hellen.
Um acontecimento, que poderia ter sido banal pra muitos, acabou não sendo pra mim. Nunca me achei padrão de beleza e sempre vivi meio que deslocado nesse sentido. Meio que acreditava que não conseguiria conquistar certas pessoas e nem me dava ao trabalho de tentar.
Confesso que me apaixonei à primeira vista por ela. Quando vi fotos dela no blog, fui atrás das redes sociais. Era tudo o que meu imaginário nunca havia ousado desenhar. E veio aquela voz sabotadora/ ultra realista, falando baixinho na minha mente :
- Esquece. Não é pra você. Perda de tempo. Além do mais, mora em outro estado e você é pobre.
Ainda assim, eu optei por alimentar essa paixão platônica e fui me aproximando. Nos tornamos amigos e ela sabia muito sobre mim, pois meu blog era quase um diário. Conversávamos diariamente pelo MSN. Acabamos encontrando um no outro, alguém pra desabafar certas coisas.
Até que num certo momento, nós estávamos solteiros ( algo raro ). E pensamos :
- Por que não ?
As conversas ficaram mais apimentadas e a convidei pra vir ao Rio. Passamos um dia mágico juntos e levei ela até a família dos pais, que ela não conhecia, numa cidade vizinha aqui.
Acabamos discutindo depois. Não entendemos o tempo um do outro e houve um desencontro. Um relacionamento a distância, quando vem pra perto, meio que há um choque de realidade. Não tivemos maturidade pra lidar com isso.
Além do mais, o que eu poderia oferecer? Não poderia pedir pra que ela largasse a mãe e viesse pro Rio. Ambos estávamos enraizados em nossas cidades. Aquela impossibilidade foi, talvez, o maior balde de água fria que eu já tive na vida. Me vi obrigado a amadurecer, aos 27 anos. Não queria mais sentir aquele caos, de não saber lidar com aquela negativa da vida.
Dez anos se passaram e ainda mantivemos contato. Ela ainda mexe com meu imaginário. Não é nenhum segredo e eu até divido os devaneios com meu namorado atual. É um lado meu que imagina como poderia ter sido. Não querendo mudar, não querendo voltar no tempo, não estando ( jamais ) insatisfeito com o hoje. Mas apenas me permitindo imaginar como seria essa vida.
Pessoas diferentes nos levam a destinos diferentes. Isso parece óbvio. Mas ter uma rotina hetero normativa é algo bem desafiador.
Das três garotas que namorei, ela é a que mais se parece comigo. Talvez por isso, às vezes rola um stress. Gostaria de vê-la novamente.
Em dez anos, muita coisa muda. Quando a vi pela primeira vez, na rodoviária, ela iluminou tudo. Pensei que fosse desistir quando me visse. Ela não estava nem aí pra isso. Na verdade, queria ter alguém por perto, assim como eu, assim como a maioria de nós.
E aquele Eu, que poderia ter sido, meio que foi enterrado no dia de finados de 2012.
Enterro prematuro, por sinal.
Há muito tempo não escrevo aqui. Sinto falta, às vezes.
Amanhã, dia 15, fará 4 meses que minha mãe partiu, aos 59 anos. Depois de uma certa idade, acabamos achando que estamos preparados pra este tipo de perda. Ledo engano.
Particularmente, eu nunca fui uma pessoa muito ligada à família, como um todo. Nunca me senti aceito, respeitado ou amado, como eu achei que deveria. Em troca, sempre agi com frieza e desdém. Acabei me esforçando pra me virar sozinho, desde sempre.
Minha mãe sempre cuidou de tudo. Nunca me faltou nada pra comer, nenhum brinquedo que eu quisesse na infância. Estudei em escolas privadas e públicas: nada com muita pompa, mas o suficiente pra sobreviver no futuro.
Não tive irmãos. Sempre gostei disso, mas a conta chega nesse momento. Ter que lidar com isso sem ter com quem desabafar no mesmo patamar. O luto do meu pai é completamente diferente do meu. Não digo que ter um irmão, ajudaria neste caso. É apenas uma possibilidade. Aprendi vendo a família da minha mãe, que certos irmãos, às vezes mais atrapalham do que ajudam.
Fiquei um mês na casa do meu pai, tentando oferecer apoio e me apegando às memórias da minha mãe, que ainda estavam muito vivas. O cheiro, as coisas do jeito que ela deixou. Ainda tinha comida pronta na geladeira. As roupas que ela lavou ainda estavam limpas. Tudo estava esperando ela voltar do hospital, com vida. Mas não aconteceu.
Minha mãe foi a terceira, de oito filhos que minha avó gerou. Teve uma infância muito pobre. Me contou algumas vezes que tinha que catar do lixo alguma coisa pra comer ou vestir. Ninguém da família tinha estudo. Viviam da pesca e de outros serviços manuais. De uns tempos pra cá, eu quis compensar essa escassez que minha mãe teve no início da vida, com um pouco de conforto.
Os preconceitos vieram, muito em parte, dos meus avós maternos. Machismo, racismo, homofobia, tudo isso gerava relacionamentos tóxicos. Irmãos que se odiavam, na maioria das vezes. Filhos que não falavam com os pais. E tudo isso acabou respingando em mim. Demorei pra entender o efeito dominó.
Minha avó materna faleceu em 2017. Coincidentemente, de lá pra cá, eu consegui me aproximar mais da minha mãe. Tive uma avó que envenenava minha mãe com os piores preconceitos possíveis, advindos da ignorância, da religião e do patriarcado. Foi um dos motivos de eu ter deixado de morar com meus pais : não ter mais que conviver com as visitas dela. Ainda assim, era uma base emocional pra minha mãe. Ela ficou muito enfraquecida com a partida da mãe e eu tentava estar perto, mas não conseguia ter muita empatia, pois fui muito prejudicado pela visão de mundo retrógrada da falecida.
O ano de 2017 marcou alguns pontos também. Era meu primeiro ano morando sozinho, de verdade. Me mudei pra morar com Guilherme e essa união, morando debaixo do mesmo teto, ruiu no primeiro ano ( 2016 ), após três anos de relacionamento. Lá estava eu tendo que me virar. Minha mãe, com a visão machista, sempre fez questão de deixar claro o que é " tarefa de mulher " e " tarefa de homem ". Desde pequeno, nunca precisei lavar louça, roupa, banheiro, etc. Inclusive acostumou meu pai assim. Com o tempo, eu vi que era algo particular dela e que eu precisaria me virar sozinho um dia. Aprender a fazer as coisas, me traria mais independência e eu não seria mais obrigado a ouvir ou aturar certas coisas. Foi aí que ela meio que sentiu no ar que o Guilherme não estava mais comigo. Se ofereceu pra voltar a lavar e passar minhas roupas. Aceitei.
Eu poderia ter dito não, mas ainda queria uma certa dependência em relação a minha mãe. Ela sempre foi adepta a jogos de poderes ( e herdei isso dela ) e essa troca de favores poderia nos aproximar. Sim, eu iria querer compensar o esforço e gasto dela comigo. E foi o que fiz.
Continuo no próximo post...
Fui diagnosticado com Covid, nesta semana do dia dos namorados, em 2021. Talvez por ter tomado a primeira dose da vacina, não tive muitas complicações. Estou me recuperando, na casa dos meus pais. Meu namorado cuidou de mim na primeira semana, e temi quanto a uma contaminação dele.
Hoje, dia dos namorados, não estamos perto um do outro. É nosso terceiro dia dos namorados juntos. Concordamos em dar um passo a frente na relação, com a união estável, nos próximos meses.
Até hoje não consegui expressar muito bem nossa relação com palavras. Eu, que sempre considerei simples colocar " no papel " os sentimentos e vivências, me vi num hiato.
Temos muitos silêncios. Talvez por não termos nenhuma pendência a resolver. Raramente discutimos. Quando estamos juntos, parece que qualquer coisa pode ser agradável... desde assistir a um filme, até mesmo não fazer nada.
Em agosto, faremos 3 anos juntos e parece que seguimos uma história sem muitos problemas. Ao encontrá-lo, senti que esta poderia ser minha última relação. Procurei descansar e desacelerar. Não preciso provar sentimentos pra ele, tampouco reafirmar minhas qualidades. Ele já sabe e já sente minha presença e meu caráter.
Os dias juntos passam rápido e tem cheiro de algodão.
A cada dia longe dele, sinto que envelheci dois dias.
Que ele lembre sempre que o amo muito.
Eric nasce no dia 21/01/2010. Mariana, está com 22 anos e eu, 24.
Como fazer com que tudo dê certo ? Sinceramente, não planejei nada. Foi tudo um grande choque, quando me dei conta da responsabilidade que seria, colocar um ser vivo a mais neste planeta.
Fiquei um pouco mais tranquilo por ser um menino, pois a Síndrome de Charcot Marie não seria passada pra seus descendentes diretos. Talvez ele tenha o gene, mas não se manifestará, pois o cromossomo só atuaria se fosse passado pela mãe.
Gostaria de entender o que acontece no cérebro masculino, assim que a namorada vira mãe. A vontade de sexo esfria muito e parece que não consigo vê-la como antes. Não consigo encaixar os motivos e racionalizar isso tudo. Apenas não consigo.
Ganhando o salário que eu ganhava na Light, ficava impossível fazer planos. Resolvi começar o curso de Administração, em uma faculdade no Centro. Recebi ajuda do meu pai. Mesmo assim, a verba era muito apertada. Sorte que a Mariana voltou a trabalhar seis meses após o nascimento do garoto.
Não conseguia visualizar um final feliz de filmes de sessão da tarde. Uma casa com quintal, o garoto com um cachorro brincalhão, um carro na garagem. Tudo me era estranho e castrava o meu eu.
Mariana acabou alugando uma kitinete na zona norte. Eu ajudava, na medida do possível. O Eric ficava com minha mãe, na parte da manhã e da tarde. Não dava muito trabalho, segundo minha mãe. Gostava de jogos, quadrinhos e não tinha muitas vontades.
Pra Mariana também não foi fácil. Contei sobre minha bissexualidade e nosso relacionamento meio que ruiu, na metade da gestação. Não ia conseguir esconder isso pra sempre. Parece que ela não me odeia. Mas a representação que ela fazia da minha pessoa, meio que se quebrou.
Nas últimas semanas, acabei me atraindo muito pela obra e história da autora Virginia Woolf. Talvez não pela história em si ou pelos assuntos tratados, mas por me identificar com seu temperamento e sua psique sempre a beira de um novo colapso.
Sim, ultimamente até as tarefas mais básicas, como levantar da cama e preparar um café, tem sido um martírio. Fico horas na cama, após acordar, pensando no motivo de levantar. Além de tudo, isso fez com que eu ganhasse peso e sabotasse ainda mais a minha alimentação.
Retornei à terapia mês passado e tem me feito muito bem. A psicóloga é jovem, iniciante, tem idéias novas e se arrisca bastante pra tentar desenrolar meu " novelo ". Porém, sinto que somente a terapia não seja suficiente pra amenizar meu desânimo. Pensei em psiquiatra, mas fico com receio de algum remédio alterar algo na minha personalidade. Me tornar um robô? Neste caso, prefiro conviver com a melancolia do cotidiano.
Ser invisível no trabalho, costuma ser a última fase de um processo de ruptura e mudanças. Talvez eu opte por sair deste cargo, em algum momento. Ou podem me desligar, obviamente. Mas com a situação econômica caótica instaurada pelo governo Genocida, não dá pra correr riscos. Sinceramente não esperava que o ato de tornarem minha pessoa um ser invisível no trabalho, afetaria tanto meu dia a dia. Acabei me desmotivando pra novas idéias. A vontade de expor erros e propor mudanças, cessou também. Quase tudo perdeu o sentido. Não assumi nenhuma responsabilidade alheia, que pudesse me sobrecarregar. Passei a adotar o velho ditado " A César, o que é de César ". Se eu não estou sendo valorizado, me deixem em paz e não me pressionem, ora essa.
E esse processo de invisibilidade refletiu nos estudos. Além do fato de a graduação de Ciências Contábeis não ter nenhuma afinidade comigo, o incômodo de ter que remar contra a maré e sem ter pra onde ir, fez eu ficar imóvel, sendo levado pela maré. Ah, mas eu poderia concluir a faculdade e aproveitar esse conhecimento pra outra vaga contábil, no mercado. Não... não me imagino nessa rotina. Coloquei na minha lista de leitura o conto " Bartleby, o escriturário ", para refletir sobre a questão de como é ser um burocrata. Aquela pessoa que apenas cumpre ordens, de forma mecânica, sem pensamento crítico. Particularmente, isso é como morrer em vida. Não desejo isso pra mim.






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