Meu primeiro blog tinha o nome de " Forever Young ". Parecia um nome inocente e até meio fútil. Mas já revelava inquietações futuras sobre algo que já me causava apreensão : o efeito do tempo. Assim como Walter Benjamin explicava em " O anjo da história ", era como se fosse um " eu do futuro " vindo me avisar, pra eu me preparar.
Nos últimos dias, recebi a notícia de que um grande amigo está internado. Alguns outros conhecidos, ao ficarem sabendo, vieram me perguntar a idade dele e eu respondia : 75 anos. Era como uma forma de eles se conformarem com ele estar internado. Juro que não entendo esse pseudo conforto. Quero que ele fique bem e siga em frente, independente da idade que tiver.
Meu amigo Paulo me proporcionou conversas, conselhos e apoio emocional, que nunca tive no meu pai. Nos conhecemos, através dos blogs, em 2009 e presencialmente, em 2012. O que chamávamos de blogsville era uma pequena comunidade de autores, principalmente LGBTs, que foram se tornando próximos e compartilhavam universos, que pareciam se entrelaçar.
Após uma vinda ao Rio, em que nos encontramos duas vezes, fui convidado a ir a Minas Gerais. Eu estava numa bad por ter tentado algo impossível e acabei ouvindo uns sermões. Peguei o ônibus e fui pra BH. Paulo me hospedou, gentilmente em sua casa. Tive contato com pessoas incríveis e a lugares em que o tempo parecia parar. Apesar de me recuperando de um acidente, onde operei o tornozelo, eu me sentia jovem e vivo, com meus 28 anos. Era como se a vida ainda tivesse pronta pra começar, com suas diversas opções. Ir de carro pra Ouro Preto, no banco da frente, conversando com Paulo, foi uma experiência pra levar pra vida. Mais que o lugar em si ( OP é algo de sublime ! ), o percurso foi algo de uma sensação de sentir o tempo passando. Em diversas outras oportunidades, estivemos por perto e mantivemos contato. Paulo sempre foi mais soturno e na dele. Eu, sempre falando pelos cotovelos e se pudesse, ligaria todos os dias e teria assunto. Com o tempo, nos restou trocar alguns e-mails.
Em janeiro de 2016, há dez anos exatos, fui morar com o Gui, meu segundo relacionamento longo. Já tinha meus 30 anos e havia chegado ao meu limite psicológico, de morar com meus pais e ter minha liberdade/ subjetividade cerceada. Resolvi alugar uma quitinete, num bairro que eu já conhecia. Eu trabalhava numa empresa grande, mas era apenas assistente. Ganhava pouco mais de um salário mínimo. Gui trabalhava num restaurante, entregando quentinhas. O dinheiro era contado, muito pouco. Nos mudamos sem ter nem o básico. Aos poucos, compramos parcelado: geladeira, fogão e máquina de lavar. Nem cama a gente tinha. Nos viramos com um colchão inflável nos primeiros meses. Um dos amigos de blog, se não me engano o Edu, me sugeriu um chá de casa nova, algo do tipo. Eu sou daqueles que tem enorme dificuldade em sinalizar pedir ajuda e isso meio que quebrou um paradigma. Resolvi tentar e deixar o orgulho de lado. Ganhei uma cama, roupas de cama novas, travesseiros, um microondas e recebo uma mensagem do Paulo, sobre a lista. Ele disse que a maioria o pessoal já tinha comprado e me fez uma transferência bancária. O valor daria pra eu pagar 2 meses de aluguel. Aquilo me deixou tão feliz e com a sensação de não estar sozinho. Pra vocês terem idéia: Meu pai não me deu 1 real sequer, nem um jogo de copos, que seja, pra minha casa nova. Não que fosse obrigação, mas comparando com a consideração dos meus amigos, é impressionante. E a grande maioria, nunca nem esteve comigo presencialmente.
Por essas e outras, é que o tempo é meu assunto central, seja nos meus pensamentos, seja nas minhas pesquisas. Gosto muito do tema " memória " também. Acho que escrever é um exercício de memória. Muita gente me pergunta:
- Como você lembra disso? Faz tanto tempo!
Rememorar, mantém vivas as lembranças e acredito que traga um conforto pra quem lembra e pra quem é lembrado. Lembro de uma conversa com a amiga, também Blogueira, Dama de Cinzas, em que eu confesso um medo que eu tinha em relação ao meu primeiro namorado : Ser esquecido. Ela me confortou e lembrou minhas qualidades e o tempo que passei com ele e me certificou, com muita segurança, de que eu jamais seria esquecido. Como se contasse pra uma criança que fantasmas não existem. Aquilo me confortou muito, mas sempre ficava uma voz, cochichando:
- Será ? Até quando ?

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