| Foto que tirei dele na Lagoa da Pampulha, em 2012 |
Nesse domingo, dia 18/01/26, recebo a triste notícia de seu falecimento. Seu corpo lutou por todos esses anos e chegou no seu limite.
Passei todo esse tempo resgatando memórias, nos blogs antigos ( FY, Tempestade, etc ), lendo comentários, postagens incorporadas, relembrando como era a convivência online há 15 anos atrás. Conheci a plataforma blogspot, por volta de 2009. Um amigo que conheci no chat Uol vivia me dizendo que eu escrevia bem e que deveria ter um blog. Na época, resolvi fazer um, da forma mais estapafúrdia possível. O Forever Young flertava com a autenticidade e superficialidade de alguém que ainda não sabia ao certo pra onde ir. Eu era um jovem adulto reativo e que não conseguia simplesmente parar e observar: era tudo muito intenso. E as amizades que fiz nessa época tiveram essa sensação de intensidade.
Tirando dois amigos próximos LGBTs, eu não tinha outros amigos. E na blogsville ( como passamos a chamar um pequeno nicho de blogs ), um blogueiro recomendava outros, que recomendavam outros, e por aí vai. Ter nosso blog na lista lateral que era a blogroll de outro blog, era sinal de reconhecimento e amizade. E os comentários, eram um ótimo sinal de que o que escrevíamos era relevante pra alguém. Não havia a vibe do " apenas curtir ", de forma robotizada e impessoal. E o blog do Bratz era como uma grande praça, com muita gente comentando e muitos blogs sendo divulgados. Aravés daquele espaço, além do casal Bratz e Elian, pude conhecer Margot, JC Vanelis, Latinha, Dama de Cinzas, Cara Comum, ManDrag, Foxx, Adulto Emergente ( Enya ), Zé Soares, Railer, Cesar Mendes, Edu, Gabriel Bruno, Daniel Braga, Sibele, Hellen, Walmir Neto, Vinicius, Edilson Cravo, Pierre, Yag, e por aí vai uma lista infinita de pessoas queridas. Muitas delas eu consegui ter contato presencialmente, noutras, mantivemos contato virtual.
Graças aos espaços nos blogs, tive muitas experiências gratificantes. E esses espaços começaram a perder importância, com a chegada dos smartphones no Brasil, por volta de 2013. O que era um ritual : sentar em frente a um desktop ou notebook e abrir blogs pra ler e comentar, passou a ser um celular no bolso. Com a visibilidade prejudicada e a pressa do cotidiano, pouca gente passou a ler os blogs. A plataforma blogspot também não se preocupou em acompanhar as tendências e parou no tempo. E muitos amigos foram se afastando.
Tenho tantas memórias a compartilhar sobre o amigo Bratz, que foi difícil escolher uma. Mas um dia de primavera, em novembro de 2012, foi diferente. Eu estava hospedado na casa do Paulo. Tomamos café da manhã juntos e ele recebe Sms do meu namorado JJ e faz questão de dizer que recebeu uma mensagem fofa e quis narrar pra mim, com seu tom debochado :
- Oi Bratz. Espero que esteja bem. Cuide bem dele, por mim. Ele é desse jeito, mas é apenas uma criança...
Ouvir aquilo, através de um amigo, foi totalmente diferente. Meu namorado nunca tinha usado esses termos comigo, mas parece que se permitiu, ao enviar pro nosso amigo, uma espécie de mediador. Fiquei emocionado.
Saímos, naquela manhã de primavera, pra visitar o túmulo da mãe do Paulo. Lembro de ter comprado flores. Conversamos sobre a mãe dele e sobre minha relação com meus pais. E num mundo de amizades superficiais e instagramáveis, como vivemos hoje, seria improvável que amigos fossem juntos a um cemitério, numa estadia curta de um deles por uma cidade. Mas Bratz, do jeito dele, sempre procurou me mostrar " a vida como ela é ". Pouco menos de uma década depois, eu perderia minha mãe. E compartilhar aquele momento com meu amigo fez com que eu lembrasse o óbvio: a minha dor já foi sentida, de outras formas, por outras pessoas, mas em situações parecidas. É um lembrete, que por mais que a sociedade hoje, queira nos individualizar, nos fazer " especiais ", no fundo a vida se resume a amizades, vivências, perdas compartilhadas e saudades.
Essa noite foi difícil de dormir, meu amigo. Sua imagem não saía da minha mente. Eu não queria acreditar que você partiu. Tive que fazer o que minha mãe me dizia: uma oração. Ainda estou atordoado e triste. Em dezembro, no final do ano, te mandei e-mail no seu aniversário. Fiquei esperando a resposta e ela não veio. Deixei meu número, caso ele quisesse me ligar. Mas o e-mail talvez não tenha sido lido. Mandei comentários no blog dele, mas todos foram pra moderação. Não consegui me despedir do meu amigo. Nunca terei a certeza se fui grato o suficiente. Se fui recíproco o suficiente na nossa amizade. E aqui estou: numa segunda feira pela manhã, chorando e paralisado, escrevendo, ao invés de tocar a vida, como a maioria faz. Talvez eu ainda seja uma criança, como o JJ dizia, em 2012.
Hoje será seu velório, em Belo Horizonte. Desejo forças e envio meus sentimentos ao Elian e todos os familiares e amigos.
Obrigado por tudo, meu amigo.
Vá em paz!
Deixo essa lembrança, de uma postagem que você escreveu no meu primeiro blog :

1 comentários:
Conheci o Paulo em 2012, lá na velha e caótica blogsfera, quando a internet ainda tinha tempo, texto longo e gente de verdade do outro lado da tela. Foi ali, nos comentários, nas leituras silenciosas e nas trocas nada superficiais, que cruzei com ele e isso marcou.
Ler seu texto dói, mas também conforta. Dá pra sentir o quanto essas conexões eram reais, intensas e humanas, num tempo em que amizade não era métrica nem curtida automática. O Paulo tinha esse dom raro de atravessar a tela e ficar. De ensinar sem didatismo, de provocar sem crueldade, de mostrar a vida como ela é, mesmo quando ela não tem filtro bonito.
Fica a sensação amarga de não ter dito tudo, de não ter feito tudo, mas também fica a certeza de que o que foi vivido foi verdadeiro. E isso ninguém tira.
Meus sentimentos
qualquer coisa, estou por aqui
Abraços
Daniel
Postar um comentário